E se a inspiração fosse embasada na boa administração das emoções?

Chamas da Seda – Prólogo
Daniel Rodrigues Cavalcante
07/08/2011
O rapaz vai até a oficina do tio, para entender um pouco de alfaiataria.
Ao chegar, encontra seu tio remendando uma peça de cetim vermelho, sobre uma mesa.
-Tio, vim aprender seu ofício.
O tio, velho magro de barba branca e óculos grossos, sorri para o jovem animado.
-Antes disso, vou te ensinar algo aquém do meu ofício, mas de mais importância. Veja a minha mesa.
Ao lado do tecido, um braseiro com um ferro enfiado.
-Veja: A emoção é como uma faísca que voa do braseiro no cetim da mente, aberto sobre uma mesa. Algumas poucas fagulhas iluminam e fazem brilhar a fazenda e revelam suas vívidas cores, como se fossem estrelas cadentes passeando pelo pano. Porém, quando há muitas centelhas voando ou quando voam chamejos ao invés de apenas faíscas, o tecido abre buracos, queima, faz pústulas derretidas, verte fumaça e fede. Nossa melhor forma de lidar com essa chama mais intensa é tapar o braseiro, mas a cada segundo, ele aumenta o calor e, se for quente demais, ele queimará a corda que o suspende e todas as brasas cairão no tecido de só uma vez.
Se você segurar demais as emoções ou vivê-las demais, seu pano esgarçará e você passará mal. Será necessário um bom alfaiate para reparar este tecido furado ou um belo broche dourado para remendar o furo. Mas, alfaiataria é um serviço caro e nem todo mundo gosta de remendar roupas por si só.
-Mas tio, porque você deixa o ferro de solda tão perto do cetim?
-Porque se eu deixar ele mais longe, o ferro esfriará antes de eu esquentar os engastes e adesivos para as pedras preciosas. Para cravejar tecidos com fios de ouro e pedras preciosas, precisa de calor, mas também há esse risco de estragar o tecido. Entende porque esse ofício é caro? Para fazer um bom trabalho, é necessário muita habilidade no calor e frio, no cortar e no juntar, no furar e no remendar.
-Tio, estou vendo que tenho muito a aprender.
-Sim, você tem. Estou longe de ser um dos melhores alfaiates ou professores do mundo, mas até mesmo minha arte mais simples precisa de muita prática.
E o sobrinho sentou-se junto para olhar seu tio prendendo diamantes e safiras ao pano, assim como seus cortes e costuras, que enfim transformou o tecido sem forma gravado de pedrarias em lindo vestido vermelho de baile.


Parabéns, mais um lindo conto..que esteja a ensinar e transformar farrapos em boa alfaiateria.