Ontem fui assaltado por um morador de rua. Ninguém se feriu, só levaram uma sacola de roupa suja da pessoa que estava me levando pro ponto de onibus. Hoje resolvi escrever algo, que meus amigos psicólogos ou que conviveram comigo o suficiente pra também ficar brincando de ler nas entrelinhas, que dirão se tratar de uma racionalização de como trabalhei esse trauma.
Exegese Humanista dos Sete Pecados
Daniel Cavalcante
22/11/10
Inveja, vaidade, gula, luxúria, ira, preguiça e avareza.
Dos sete pecados capitais, todos os ocidentais sabem dizer ao menos cinco deles de cor. Todos os católicos pedem todos os dias o perdão de seus pecados, em suas preces. A culpa por cometê-los pervade a psique das pessoas.
Mas de onde veio essa ideia de que algumas ações ditas “viciosas” poderiam levar a alma da pessoa à perdição absoluta?
Muitos filósofos, teólogos e pensadores se debruçaram sobre possibilidades. Não estudei nenhum deles, então só usarei minha intuição como guia para dizer algo que me pareça ser um indicativo interessante de como essa concepção moral possa ter surgido, além de julgar o que escrevo sob a perspectiva de um humanista.
Como se sabe, na Antiguidade, os recursos eram raros e a violência imperava por pouca coisa. Aos que duvidam, leiam “As Mil e Uma Noites” e “O Anel dos Nibelungos”. As pessoas matavam até seus parentes sem hesitar por ouro, honra, conveniência ou por pura maldade – como se fosse tão diferente de hoje – , mas na época qualquer um poderia ter acesso às armas civis mais avançadas da época, as facas, tacapes, espadas, lanças e arcos-e-flechas. Logo, podemos pensar que a violência era democrática e, com os recursos escassos, qualquer levante de moradores de campos de cabana ou favelas poderiam se levantar e saquear a cidade alta inteira. Muitas vezes isso aconteceu.
Ao se pensar nos primórdios da moralidade, toda ação era válida se trouxesse o que se necessita no momento. Nessa concepção maquiavélica pouco refinada, ninguém estaria seguro frente ao outro. Se alguém tem uma roupa bonita, outro poderia tê-la só apontando uma faca para ele e exigindo que ele dê a roupa ou, caso não coopere, um golpe na cabeça já daria para pegar a roupa para si.
A inveja é um sentimento pervasivo, que faz com que as pessoas desejem ter o que os outros têm. A inveja é a semente que floresce nos crimes de aquisição ilegal de bens de toda a sorte, sejam violentos ou não.
A vaidade é a vontade de se ver bonito. Mas, não é só desejar que vai tornar sua pele quebradiça e pintada em uma seda. Os cosméticos, banhos de leite e ouro, massagens e esfoliações que vão. Seus cabelos não serão realmente bonitos se você já não nascer com a genética ideal capilar, mas com tantos cremes, chapinhas, químicas e tintas, ele poderá ser. A beleza vem, mas vem caro. Numa época que as coisas eram tão poucas, para se ter um tratamento cosmético desses, desembolsava-se fortunas.
A gula é comer além do que é necessário para se sobreviver. O ser humano tem o paladar muito sensível ao açúcar e às gorduras. Seu instinto de sobrevivência das Eras Glaciais o levou a comer compulsivamente coisas doces e gordurosas, para criar uma capa de gordura em seu corpo, que o manteria aquecido e nutriria nas épocas de escassez. Na época que as colheitas poderiam não vir, a comida era preocupação constante e o esbanjar comida era quase maldade em vista das hordas de famélicos.
A luxúria é todo estímulo sexual que não está voltado para a reprodução. O homem é um dos únicos que pratica atos sexuais e estimula os genitais para ter prazer e não só se reproduzir. A partir do sexo, as pessoas começaram a ver no próprio corpo uma fonte de vantagens sociais, assim como um poço de prazer. Como uma peste poderia devastar nações inteiras, assim como guerras, o aumento da população era muito necessário. Se as pessoas transassem só por prazer, das formas que desejassem, haveriam menos pessoas no mundo. Nas orgias sagradas de Baco, as pessoas transavam até alcançar um estado de êxtase que as levava a fazer atos bestiais, como estraçalhar seus parceiros com unhas e dentes. Existem relatos de cidades que foram dizimadas pelos bacantes.
A ira é a fúria cega, que leva a pessoa a destruir tudo em seu caminho até que a fonte da própria ira seja destroçada. Na Antiguidade, a violência era onipresente. Era matar ou morrer diariamente. Desde a perdiz que se comia até o ladrão que invadia a casa, o homem sempre precisou atacar e defender-se aos golpes para manter-se vivo. Como disse acima, a violência é algo contagiante e fácil de se espalhar. A ira explodiria com facilidade nos povos guerreiros.
A preguiça é a falta de motivação de se realizar as tarefas que foi incumbido. Numa época sem máquinas, sem leis trabalhistas e sem profissionais de recursos humanos, a depressão, a estafa ou qualquer outro transtorno psíquico que levasse a pessoa a desinteressar-se pelas tarefas era considerado preguiça. Os nobres, aristocratas e pessoas abastadas não precisavam trabalhar, e viviam em vidas ociosas, visitando amigos e dedicando-se às leituras e eventos culturais.
A avareza é o acúmulo de bens materiais para além do que era necessário para sobreviver. Os pobres que não dividissem a sua comida com quem precisasse muito poderia colocar em risco a vida de várias pessoas, seja pela mão da violência ou seja pela mão da fome e das doenças. Os ricos já nasciam ricos e os pobres já nasciam pobres. Um pobre que tentava ascender à riqueza pelo acúmulo era desprezado.
Visto todas essas problemáticas sociais da antiguidade, os sete pecados foram engastados na ética e moral judaicas para que as pessoas pudessem conviver com mais segurança entre si. Mas, como essa problemática acontecia entre povos muito brutos e violentos, eles só compreenderiam a mesma língua que falavam: a língua da espada.
Quando a espada era a lei, as divindades eram vingativas e destrutivas. Quando o povo já é amansado, as divindades passam a “Amar seus seguidores que seguem sua lei escrita”.
A lei escrita por Deus passa a ser a lei dos homens, os pecados passam a amansar as emoções do povo que potencialmente destruiriam o “bem-bom” dos ricos e dos aristocratas e todos começam a conviver melhor, abaixando a cabeça para o mais poderoso sob a ameaça do orgulho e da inveja. Comeriam pouco, para evitar a gula. Aceitariam pagar impostos sem lutar para evitar a ira e a avareza. Trabalhariam de sol a sol para não serem vistos como preguiçosos. Deus vê tudo, então também vê quando se faz sexo ou quando se “derrama a semente” sem a intenção de engravidar, logo a luxúria não teria vez. Comeriam pouco, tudo do mais simples, evitando ostentar o mínimo de riqueza, para esquivar-se dos pecados da gula e da vaidade.
Os pecados capitais eram poderosos meios de controle social da época pré-industrial, se essa forma que imagino que o mundo era seja um retrato mais ou menos real. Atualmente, esses “pecados” são ideias retrógradas. Nossa indústria já produz alimentos, bens de luxo, cosméticos e outras coisas que antes eram escassas em proporção para que todos possam ter um nível de vida decente. Nossa população já é grande o suficiente para que o coito sem o objetivo de fecundação não seja algo impensável. Já temos terapias e medicamentos muito eficientes para o tratamento da ira e da depressão. Por mais que me doa admitir isso, a ética burguesa protestante trouxe dignidade aos que desejam mudar de vida enriquecendo com seu próprio trabalho.
Sendo assim, eu concluo nessa exegese que os sete pecados capitais são leis necessárias à sobrevivência da sociedade sob condições de vida similares à época pré-crística. Se a justiça não poderia ser entregue pelas mãos dos homens, seria entregue na pós-vida. Para desferir o castigo, foi implementada a figura alegórica de um algoz perfeito, o diabo, como o portador do castigo divino pela prática dos “vícios” e mantiveram a sociedade com mais ou menos estabilidade. São conceitos arcaicos, que precisam ser meditados e revistos, no âmago de todos, individualmente.



bom a prendi alguma coisa