E se a inspiração não arrebatasse como um raio? E se fosse como uma fogueira?

Chamas de Seda
Daniel Rodrigues Cavalcante
07/03/2010
Um farfalhar de seda invade a sala do escritório do jovem poeta. É a Inspiração, moça jovem e cativante. Seu longo vestido carmim se espalha pelo ambiente, cobrindo todo o chão de carpete com sua extensão. Ela chega ao centro da sala sem uma palavra. Olha para o poeta com seu olhar lascivo e sorri com sua face de batom.
O poeta coça sua barba farta e, por trás dos seus óculos de grau, observa a moça, que começa a mudar seu mundo sem uma palavra.
Os panos vermelhos da Inspiração se estendem da barra, e avançam como se tivessem vida. Tapam as janelas. Envolvem as paredes. Cobrem os limiares da porta. Fecham-se no teto. Por fim, envolvem a lâmpada solitária da sala, que apaga a única fonte de luz da sala.
Sem conseguir se mexer, o poeta apenas observa boquiaberto o espetáculo da moça, que toma a tudo sem ao menos falar uma única palavra, mudando tudo com seu toque.
Passados alguns minutos na escuridão, sem mais aguentar, ele berra:
-O que você quer de mim, Inspiração?
Ela não responde.
O jovem apóia os cotovelos na sua mesa e enfia a cara entre as mãos. Tenta sair da cadeira, mas não consegue. A seda vermelha amarrou suas pernas na poltrona. Ele grita por ajuda, mas ninguém conseguiria ouvir de fora da sala.
Mais uns minutos de luta infrutífera na sombra, e o jovem se cansa. Resolve pegar a caneta-tinteiro, que tem uma ponta de agulha. É a única coisa cortante que tem acesso agora. Caríssima, pertence ao seu pai, mas agora ele está disposto a destruí-la apenas para sair daquela armadilha tantalizante.
Quando toca a caneta, o poeta percebe que onde havia um buraco de rato na parede, o vestido da Inspiração não conseguiu cobrir. Um pequeno objeto brilha bem fraco naquele ponto.
Se enfiar a mão, pode até perder um dedo se o rato estiver lá, mas se não fizer nada, não vai conseguir se desvencilhar.
O poeta respira fundo, e, com o coração na mão, enfia a mão no buraco de rato com a coragem de quem salta de um precipício. Alcança uma coisa gelada, metálica. Não é o rato ou alguma armadilha, pelas graças dos Deuses, pensa ele.
Ao tentar puxar, vê que o tecido está enovelado em volta do objeto. A caneta rasga o pano num instante, porém sua ponta está destruída, ouro puro descartado. Mas o objeto era mais importante. Poderia ser o que tiraria ele de lá.
Ao manipular a coisa, o poeta corta o silêncio, falando as características do objeto: pequeno, retangular, de toque gelado e metálico, com ranhuras no lado mais largo, uma divisão entre a parte inferior e exterior, uma forma cilíndrica pequena num dos lados… uma dobradiça! É de abrir… Um cilindro áspero e um buraco que as bordas cortam os dedos. Tem uma parte móvel, um botão aqui que…
Click! Uma chama lança sua luz tremeluzente no local. O poeta vê que trocou a caneta por um isqueiro, o que precisava. Rapidamente olha em volta para ver o que encontra. A moça não está mais lá, o corpete de seu vestido flutua soturno no ar. Seu cantil de whisky está sobre a mesa, junto com seus últimos escritos, os que a editora está esperando. Meses de trabalho. O isqueiro começa a falhar, por falta de gás.
Ou ele sacrifica as poesias dele, ou a luz.
Sem pensar muito, o poeta vai ateando fogo nas suas páginas, uma por uma, para manter a luz ali dentro. Cada página queima por alguns segundos, umas poucas, com verdadeiras obras de arte, parecem queimar por mais tempo.
Seu caderno já está acabando, agora queima folhas em branco. Sem saber mais o que fazer, enrola uma folha de papel, com uma pequena poesia escrita no verso da última folha do caderno, a recita em voz alta e a enfia no cantil de whisky. Acende a ponta do papel e o joga contra o vestido. Se for pra morrer, que ao menos seja como cometa e não prisioneiro.
Enquanto as chamas lambem o escritório, um papel em brasa flutua no ar. É a última poesia do rapaz, a que foi escrita atrás do caderno. Ele pega o papel no ar, recita ela em voz alta enquanto o ar na sala vai acabando. Ao recitar o último verso, ele percebe que essa foi a poesia mais bela que já existiu, é a que lhe libertou dessa vida. Sem ar, sua cabeça desfalecida se deita na mesa.
…
Tossindo muito, o jovem levanta a cabeça da mesa, abrindo e esfregando os olhos. Está no mesmo escritório, sem aquela moça tétrica, sem pano carmim, sem buraco de rato, sem caneta quebrada, sem isqueiro, sem whisky. Sua cabeça está quente, febril. Suas mãos tremem. Seus olhos ricocheteiam pela sala, procurando algo.
Tonteando pela febre, pega o primeiro sulfite que encontra e a caneta de ouro. Escreve sem pensar, sem pestanejar, sem tomar ar. Escreve como quem come um sanduíche numa catástrofe natural. Palavras jorram da ponta dourada da caneta tinteiro.
Quando acaba de colocar o último ponto, o poeta toma ar e, resfolegante, recita a poesia com a rapidez de um narrador de futebol.
Está completa a poesia, a poesia da chama, do vestido carmim, do sorriso de batom de mulher que invade a sala e domina tudo. A poesia de sua alma.
Sua febre some. Seu descontrole some. Volta a ser um pacato jovem, que foi tocado pela Inspiração. Coloca a sulfite dentro de um envelope marrom, o envelope da editora. Com um sorriso, se levanta para levar a carta para o correio.
-Querido, não se esqueça que à noite vamos festejar nosso aniversário de casamento – Diz uma voz de mulher, de cima da escada.
Sapatos envernizados de salto alto descem a escada, fazendo o tradicional toc-toc das damas. Uma seda vermelha vem sendo arrastada pelas escadas. Cabelos ruivos num belo vestido brilhante emoldurando o rosto branco de lábios encarnados e olhos de lápis. Seu sorriso estremece o homem.
-Já faz um ano, não é, amor? - Diz o homem, vendo a belíssima mulher chegar próxima dele. – Você está linda, é minha inspiração de vida e razão de meu escrever.
-Volte logo e se arrume. Reservei um jantar a dois naquele restaurante.
-Por isso que te amo, amor. Agradeço todo dia o momento que você entrou de sopetão na minha sala, sem falar nada, e mudou meu mundo.
Ela apenas sorriu. Sorriu um sorriso vermelho, inspirador.


ADORÁVEL!
Gostei muito das imagens que fez no texto. ^^
Obrigado Ms. M pelo carinho e pelo feedback! Fique bem!
Beijos do Daniel
Procurei por palavras chaves e post sobre o tema amor e nada encontrei? Nadas tem para falar sobre o amor?